Os filhotes de diamante-mandarim (Taeniopygia guttata), a simpática espécie de pássaro, não são muito diferentes dos bebês humanos em pelo menos um quesito: antes de aprender a falar (cantar, no caso), eles balbuciam, num equivalente do nosso popular "gugu-dadá". Um trio de pesquisadores americanos descobriram que, para isso, os bichinhos usam um circuito cerebral especializado, o que pode mudar algumas idéias importantes sobre como o cérebro "aprende" as coisas.
O trabalho, coordenado por Michale S. Fee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, está na edição desta semana da revista especializada "Science". Fee e seus colegas estudaram três fases do desenvolvimento dos pássaros: a que poderíamos chamar de "gugu-dadá" (de
Fee e companhia se dedicaram a estudar o papel de diversas áreas cerebrais na produção do canto do diamante-mandarim, ave ornamental um bocado comum nas gaiolas brasileiras, embora seja de origem asiática e ocorra também na Austrália. A atenção deles se centrou na "fiação" do chamado centro vocal superior (HVC), na sigla inglesa. Sabia-se que o HVC é crucial para a produção do canto "profissional" dos adultos. Seria usado também para emitir o "gugu-dadá"?
De volta à infância
Para investigar isso, os pesquisadores usaram diversas técnicas, tanto cirúrgicas quanto farmacológicas, para "desligar" o HVC. O interessante é que esse teste não só não impediu os passarinhos-bebês de "balbuciar" à vontade -- eles continuaram plenamente capazes disso -- como também induziu os adultos a voltarem a cantar como filhotes. Se as substâncias usadas para bloquear o funcionamento do HVC não eram mais dadas aos bichos adultos, eles voltavam a "falar como gente grande".
Em entrevista ao podcast da "Science", Fee comparou o balbucio dos passarinhos aos movimentos musculares involuntários que os filhotes usam para, gradualmente, controlar a ação de seus músculos. Antes, acreditava-se que os mesmos circuitos cerebrais eram usados para controlar as ações infantis e as ações maduras -- a diferença seria apenas de treinamento. Se a nova pesquisa estiver correta, o certo será dizer que os organismos possuem regiões cerebrais especializadas para o aprendizado e para a ação "real".
Fonte: G1